terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A Obsessão Pelo Padrão



A obsessão pelo padrão

Já repararam que os jogadores em geral, desde os mais iniciantes ao melhores tendem a fazer sempre as mesmas aberturas? Ok, isso se deve ao fato de que no inconsciente gerou-se uma estrutura do que é seguro e do que não é seguro fazer quando se joga Reversi, e isso se fixou muito nas ditas aberturas.  Você pode observar as mais famosas de todas que têm até os respectivos nomes de quem as patenteou e/ou nomeou,  Rose-Bill, Tamenori, Nicolet, Brightwell, Tanida Buffalo, Mimura Variation 2, Lollipop, No-Cat (Continuation) e etc... são muitas... Levando em consideração de que matematicamente o Reversi 8x8 não foi ainda decodificado, você conseguiria dar uma resposta honesta do porquê não criar uma outra abertura que fuja dessa premissa e ainda sim ter uma certa vantagem no jogo?

Isso me lembra aqueles embates filosóficos onde alguém diz que fulano não tem o ônus da prova, e sicrano diz que beltrano também não o tem, por estas respostas estarem dentro de um escopo ontológico, e a epistemologia  não trará a visão necessária para uma resposta fidedigna por ambas as partes.  E uma vez que metafisicamente falando é impossível empiricamente provar que a simples matemática de 2+2 é igual a 4, imagina então os bilhões e trilhões de possibilidades de jogadas possíveis que há no Reversi tradicional?  Estima-se que o número de partidas possíveis é algo em torno de 10 elevado à quinquagésima quarta potência,  então supomos que exista uma abertura “X Special” que ninguém usa por intuitivamente parecer insegura, mas que desde que seguida de maneira correta poderá lhe dar vantagem no jogo, ao ser rejeitada por cada vez mais jogadores, ela tende a parecer inconfiável,  mas essa percepção é apenas fruto de um mecanismo biológico, construído pelo cérebro humano e espalhado como um meme. Na verdade todos ficamos craques na mesma coisa, a intuição que foi e é uma arma maravilhosa no sentido da sobrevivência humana durantes milhares de anos, nesse caso pode apenas ser a afirmação e glorificação do erro. Nesse sentido, a intuição é um erro que um faz e o outro assina embaixo.

De forma alguma eu estou dizendo que as aberturas tradicionais estão erradas, matematicamente falando elas também fazem todo o sentido, os programas estão ai para falar por mim, mas já pararam para pensar o porquê existem  programas e programas? Todos usam o mesmo método Poda Alfa-Beta, porém a árvore de busca que um cria, o outro é incapaz de criar, de “enxergar”, é matematicamente além da sua visão computacional. Ou seja, o programa erra, mas o fato dele errar não significa nada para saber se o outro acertou, na verdade Reversi mesmo para máquinas pode ser um jogo onde ganha quem erra menos, assim como é entre humanos. Então voltemos a idéia central do post, que é o porquê de você e,  nem mesmo eu nos arriscarmos em aberturas alternativas, (alternativas no sentido de terem sido excluídas, mas ainda assim iguais) é interessante chamar essas aberturas de alternativas, porque me faz lembrar que nos tempos antigos os Romanos e seu império continental chamavam aos não romanos de bárbaros, que é justamente o mesmo nome que os gregos davam aos romanos por serem “não gregos”... (risos), então acredito eu que deveríamos focar mais nessas outras aberturas esquecidas pela história do jogo, e a visão memética dos reversistas no decorrer do tempo.


Óbvio, falei até agora de uma preferência geral que tem a assinatura dos jogadores mais bem treinados, mas existe uma outra classe de jogadores que mesmo sendo muito bons, e habilidosos no jogo tem uma inconstância perceptível no jogo, e não seguem o padrão na aberturas dos “viciados”, e procuram sempre construir suas próprias aberturas, mas com algumas exceções, mesmo esses ainda sim seguem alguma premissa, seguem algum padrão que em quase nada se compara aos inéditos jogos iniciais à la XOT playokiano, ou seja, o padrão está lá, vivo e pulsante.  Tá Fabrício, mas isso ou aquilo, esse ou essa não acabam no final das contas sendo um padrão? Sim, tudo é em si um padrão,  mas é a niquice de aberturas utilizada por oito em cada nove jogadores de muito conhecimento que me surpreende.

Em “Alice no Espelho”, a jovem menina se depara com um mundo de possibilidades através daquele vidro, um mundo todo quase igual ao seu, porém, tudo  invertido. A pergunta que eu li certa vez em uma revista ainda me persegue: “Será que o leite tem o mesmo gosto naquele mundo?”, talvez alguns respondam que sim, mas pense mais um pouco e leve em consideração que as moléculas e átomos que compõe a química que constrói aquilo a que chamamos de leite está ao contrário, não sabemos se o gosto seria igual, nem mesmo se o leite poderia exatamente existir nesse mundo. Nesse sentido, se o leite existisse nesse novo mundo, ele teria algum gosto e poderíamos tomá-lo desde que não fosse venenoso ou danoso de alguma forma à nossa saúde, apenas teríamos que adaptar nosso paladar a ele, assim como algumas pessoas se adaptam a alimentos dos quais a principio achavam ruins, amargos ou azedos, lembre-se, o gosto não existe, é apenas uma interpretação do seu cérebro. Então se puxarmos esse sentido as aberturas inexploradas do Reversi, a metáfora se ajusta perfeitamente já que o que temos que fazer é justamente se adaptar àquilo, treine seu “paladar” nessas novas velhas e eternas aberturas, que estão lá à espera que as desvendem.   Nossa mente procura a simetria, cria o belo no simétrico, os rostos mais atraentes são quase sempre os pares perfeitos, (lado esquerdo e direito idênticos) mas saiba você que o universo é assimétrico, afinal de contas seu corpo e boa parte daquilo que o compõe em nível celular ou não, também é.  Acredito que a perseguição com o jogo simétrico e aberturas padronizadas sejam um delírio jogabilistico, tanto quanto a percepção da beleza. Explore o outro mundo, seja uma Alice nesse sentido e se desprenda dessa criação da mente humana que tanto serve para dar algum sentido a nossa vida mas que às vezes faz o papel do grilhão em suas pernas, se liberte! Lembre-se, o Universo é assimétrico em sua essência.



Eis algumas aberturas não convencionais e algumas de suas loucas nuances:

   1. f5   2. d6  3. c4   4. f3 5. c5   6. e6 7. e7   8. g4 9. g5  10. c6 11. f4  12. f6 13. e3  14. e2 15. d7


   1. f5   2. f4 3. e3   4. f6 5. g4   6. c5 7. f7   8. g3 9. f3  10. e2 11. d3  12. h4 13. h5  14. f2 15. h3


   1. f5   2. d6  3. c7   4. f6  5. e6   6. f4  7. d3   8. c6  9. e3  10. f3  11. g4  12. h3 13. g5  14. h4 15. g3


   1. f5   2. f6  3. f7   4. e3 5. f3   6. g5 7. h4   8. d6 9. e6  10. f4 11. g4  12. h5  13. h6  14. h3 15. h2  16. g3


   1. f5   2. d6 3. c7   4. d7 5. c5   6. f6 7. d8   8. b6 9. f4  10. g4 11. e3  12. e6 13. e7  14. d3 15. f3



Aqui nesse link, você poderá ver algumas das aberturas mais tradicionais citadas por mim no início da postagem:

An Reversi Animated Guide

http://samsoft.org.uk/reversi/

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